sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Depressão - A Perda do EU

 


       
          O diagnóstico da depressão muitas vezes é facilmente confundindo e frequentemente banalizado. Qualquer tristeza ou ansiedade mesmo que considerada normal em qualquer ser humano, em decorrência de um luto, ou qualquer outra perda, seja de um trabalho, de um relacionamento afetivo etc, já pode ser motivo para decretar precocemente o diagnóstico. No entanto, nesse artigo, vou me ater quando realmente se trata do transtorno da depressão.
   Atualmente, mais de 120 milhões de pessoas sofrem com a depressão no mundo, estima-se que só no Brasil, são 17 milhões. E cerca de 850 mil pessoas morrem, por ano, em decorrência da doença. São dados da OMS (Organização Mundial de Saúde).
            Ainda de acordo com OMS, até 2020 a depressão será a principal doença mais incapacitante em todo o mundo. Definitivamente, isso não é pouca coisa.
            Falando brevemente sobre as causas químicas e psiquiátricas da depressão, a desregulação na produção e receptação de neurotransmissores responsáveis pelo sentimento de bem estar, prazer e disposição, como a serotonina, dopamina e noradrenalina no SNC (Sistema Nervoso Central), acarreta um desequilíbrio hormonal e então surgem os primeiros sintomas. Os principais e mais comuns seriam: diminuição ou perda da auto-estima, insônia, tristeza, ansiedade, pessimismo, falta de motivação, vazio interno, raiva, impaciência e intolerância. Inclusive a pessoa pode experimentar uma perda de interesse nas atividades que antes eram muito prazerosas, mas que agora deixaram de ser. Quase sempre de forma abrupta e sem motivo aparente.
            O objetivo do tratamento psiquiátrico consiste na eliminação dos sintomas que constituem o transtorno, através da prescrição de fármacos (antidepressivos). As reais causas que levaram essa desregulação química, ficam de fora. Não sendo devidamente investigados e tratados da forma correta. Isso na grande maioria das vezes (como os próprios pacientes relatam).
            Não obstante, não estou dizendo que todos os psiquiatras não investigam corretamente nem que o tratamento farmacológico em muitos casos também não tenha a sua importância, a sua contribuição. Pois a medicação por um período, pode ajudar muito a pessoa a reunir condições de inclusive sair da cama, de não adoecer ainda mais etc. Inclusive o melhor tratamento é o realizado em conjunto, uma parceria Psicologia/Psiquiatria.
            Mas o que leva essa desregulação química? Existe algum fator determinante para desencadear a depressão?
            C. G. Jung, nos fala sobre o processo de individuação, de tornar-se quem realmente nós somos e o quanto uma falha nesse processo pode nos adoecer de diversas maneiras (a depressão é uma delas). Ou seja, quando não estamos conseguindo conduzir a vida da maneira que realmente gostaríamos e deveríamos, abdicando dos nossos reais desejos para não decepcionar alguém ou muitas vezes por “medo” desse alguém, fatalmente iremos sofrer. Mesmo que eu não perceba, não sinta de imediato os seus efeitos, essa situação nos afeta e pode adoecer.
            Freud já alertava sobre a possibilidade de quando “perdemos o objeto amado”, (por “objeto” entenda-se um sonho, uma idealização, uma pessoa etc) ou ainda quando inclusive perdemos o nosso verdadeiro EU, a pessoa muito provavelmente irá adoecer de melancolia (depressão). Mesmo que essa perda não seja consciente, como afirmou Freud: “A melancolia (depressão) está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda”.
            Para tentar ajudar o leitor compreender essa perda segundo Freud ou a falta de se realizar, de se tornar quem realmente somos de verdade (processo de individuação) do Jung, vou citar alguns exemplos.
Vejamos: quando a vontade do pai, faz com que a pessoa estude e trabalhe por anos em uma profissão que não o faz feliz, pelo contrário, é motivo de infelicidade. Ainda assim a pessoa não tem coragem, forças o suficiente para enfrentar esse pai ou mãe, muitas vezes enfrentar a família toda e romper com o que faz mal a ela. Ou, quando uma filha sai de casa e vai morar em outro país e a mãe não consegue aceitar viver longe dessa filha, não compreendendo que ela tem o direito de viver a sua própria vida, de fazer suas escolhas e acaba adoecendo (nesse caso adoece as duas, a mãe por não aceitar e a filha por se sentir culpada em deixar a mãe e saber que ela está sofrendo). Ou ainda quando a pessoa não consegue dizer “NÃO” para os outros e sempre está se contrariando, fazendo a vontade alheia. Ela viaja sem querer viajar, ela come algo sem querer comer, faz isso só para agradar. Ela se veste, fala, se comporta de uma maneira que não é sua, não é de sua vontade, seu real desejo. Tudo em nome de “para evitar brigas desnecessárias”, ou “acho que a pessoa tem razão mesmo” etc. Ou seja, toda vez que não entramos em contato com nosso verdadeiro EU, estaremos falando “Sim” para os outros e “Não” para nós mesmo. Isso tem um preço e a psique fatalmente ira cobrar. Mais cedo ou mais tarde a fatura chega (com juros).
            Portanto, a pessoa que não conhece a sí mesma, que não toma as rédeas de sua vida, que não conhece seus verdadeiros desejos ou que não consegue sustenta-los, ou ainda, que não consegue lidar com perdas por não compreende-las ou por egoísmo (Narcisismo) não as aceita etc, com certeza torna-se um sério candidato a desenvolver esse transtorno tão penoso para sí mesmo como para sua família e a todos ao seu redor. Em alguns casos com desfecho trágico (suicídio).
            Tenho observado em meu consultório, ao menos na última década, que cada vez mais, tem aumentado o numero de pessoas que tem procurado ajuda com o quadro de depressão ou que acreditam sofrer desse transtorno.
A psicoterapia tem se mostrado fundamentalmente importante na vida das pessoas com esse diagnóstico (ou as que também estão muito tristes, sentindo um vazio, mesmo que não seja necessariamente depressão). É através da analise do inconsciente que a pessoa pode se encontrar, se conhecer, compreender melhor o motivo de seu adoecimento e obviamente reunir as condições de superar suas dificuldades, sua depressão. A psicoterapia vai definitivamente ajudar a pessoa a se libertar, ajudar a pessoa a resolver os seus complexos, os seus traumas, os seus medos, ajudar a pessoa a dizer “SIM” para sí-mesma, enfrentar a vida e seus obstáculos. A psicoterapia irá proporcionar o que é de mais importante, o encontro da pessoa com o seu verdadeiro EU e dar o suporte que a pessoa necessita para aprender a enfrentar e a compreender a sí-mesma. 

         O lado bom da vida é viver. Viver com saúde, com dignidade.

         Encontrar a SÍ-MESMO, vale muito a pena!! 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

RITALINA - A DROGA DA OBEDIÊNCIA




Hoje posto aqui um artigo que escrevi para a Revista Canguru na versão completa (na revista por conta das normas da revista está resumido) sobre a Ritalina, uma droga que vem causando muita polêmica e explodindo nas prescrições no mundo todo. Fica aqui um alerta para os senhores pais e cuidadores. No final coloquei um link da matéria publicada na revista.

Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), de 8% a 12% das crianças no mundo todo foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade). A queixa dos pais e dos professores de que a criança tem dificuldade de se concentrar, de ser agitada e muitas vezes desobedientes, são os principais motivos que os levam a procurar ajuda médica e engordarem essa estatística.

       A Ritalina, nome comercial do metilfenidato, é um psicoestimulante, prescrito majoritariamente no tratamento de crianças diagnosticadas com TDAH. Sendo um estimulante, da família das anfetaminas (como a cocaína), se consumida em certa dosagem, defende-se que auxiliaria no desempenho de tarefas escolares.

Atualmente, qualquer sinal de mal-estar pode ser diagnosticado como uma patologia cuja conduta será unicamente a administração de psicofármacos. A prescrição abusiva de psicofármacos não atinge apenas os adultos, mas também o mal-estar das crianças tem encontrado uma resposta pronta naquele saber autoritário que não resiste à compulsão de medicar.

Mas aí é que começa os problemas. Não existe nenhum estudo acadêmico no mundo que comprove sua eficácia e que diga com certeza todos seus efeitos colaterais. Dessa forma, o diagnóstico precoce e errado em uma criança fatalmente estará a expondo a um risco muito grave de saúde.

Alguns efeitos colaterais além da própria dependência da medicação, já são bem conhecidos, como surtos de insônia, piora cognição, surtos psicóticos, alucinações e risco de suicídio. São dados registrados no Food and Drug Administration (FDA). Outro agravante, contrariando inclusive a própria bula da medicação, crianças menores de 6 anos, cada vez mais vem sendo erroneamente diagnosticadas e medicadas.

As crianças muito inteligentes e de raciocínio rápido, criativas e inquietas no sentido de existir nelas o lado questionador que proporcionou a humanidade grandes gênios e pensadores, estão agora, desde muito cedo recebendo uma sentença condenatória de doentes e consequentemente tratamento medicamentoso, por um tempo muitas vezes indeterminado.         

Não negamos que algumas crianças podem ter dificuldades em algum momento em seu desenvolvimento, mas uma avaliação correta e cuidadosa, imprescindivelmente tem que ser multidisciplinar, ou seja, psiquiatras, neuropediatras, psicólogos e neuropsicólogos devem trabalhar juntos. Do contrário, fica impossível fazer um psicodiagnóstico seguro a respeito da criança.

A melhor forma de ajudar os pais e essas crianças, reside fundamentalmente na compreensão da dinâmica familiar. Detalhes que escapam, que passam desapercebidos da atenção e compreensão de todos.

Como C. G. Jung já havia percebido e alertado: “Sempre que uma criança pequena manifeste os sintomas da neurose, não se deveria perder muito tempo na pesquisa de seu inconsciente. A pesquisa deveria ser iniciada em outro lugar, a saber, na própria mãe, pois de acordo com a regra geral os pais são sempre os autores diretos da neurose da criança. Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmo. Talvez estejamos entendendo mal a necessidade pedagógica, porque ela nos recorda, de modo incômodo, que de qualquer maneira somos crianças e precisamos muitíssimo da educação”

Link: https://www.canguruonline.com.br/sao-paulo/noticia/artigos/ritalina-a-droga-da-obediencia
 

Depressão - A Perda do EU

                    O diagnóstico da depressão muitas vezes é facilmente confundindo e frequentemente banalizado. Qualque...